Mostrando postagens com marcador homens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador homens. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Balanço de gênero e religião

Esta postagem pretende analisar o balanço de gênero nas religiões, conforme as divisões feitas pelo IBGE no Censo 2010 (que é a fonte de todos os dados). É válido lembrar que não será visto exatamente o balanço de pessoas de cada gênero, mas o balanço da taxa de pessoas de cada gênero. Um resultado de uma religião tendo o mesmo exato número de praticantes mulheres e de praticantes homens não seria realmente representativo, porque temos mais mulheres que homens no Brasil. São 97.348.809 mulheres e 93.406.990 homens, com mulheres representando 51,03% da população, portanto uma divisão realmente igualitária teria em cada religião 51,03% das praticantes mulheres e 48,97% homens. Mas isto é real? Alguma religião chega perto disto? Há algum grupo religioso em que a taxa de homens é muito maior? E que a taxa de mulheres é muito maior? Isto é analisado na tabela a seguir:

Tabela 1 - Taxa de cada grupo religioso

A "relação homem/mulher" é calculada dividindo a taxa de de homens praticantes da religião pela taxa de mulheres praticantes da religião. Por exemplo, pegando o número de pessoas autodeclaradas católicas romanas. 65,4986% dos homens se autodeclaram católicos romanos enquanto 63,7911% das mulheres se declaram assim. Dividindo 65,4986% por 63,7911%, achamos o valor 1,027, o que indica que a taxa de homens é 2,7% maior que a de mulheres praticando a religião. Aplicando isto a várias religiões (nota: enquanto ateísmo e agnosticismo não são religiões nem posições sobre religião, usarei a classificação que o Censo 2010 usa), algumas observações podem ser feitas:

Homens são maiores nas religiões católicas. Tanto na Igreja Católica Apostólica Romana (Icar), como na Igreja Católica Apostólica Brasileira, uma igreja brasileira que está em comunhão com o papa e portanto não é parte da Icar e deve ser contada diferente. A Igreja Católica Ortodoxa, que é usada no Censo tanto para determinar ortodoxos como ortodoxos orientais, também apresenta taxa favorável a homens. De todas as outras fés de orientação cristã, mulheres têm a taxa maior (em especial das Testemunhas de Jeová, na qual a taxa feminina ultrapassa a masculina em mais de 25%. Devido à grande preponderância de mulheres em fés cristãs não-católicas, se nota que mulheres, no Brasil, são 2,91% mais propensas a serem cristãs.

Analisando os números das outras fés abraâmicas, notamos uma leve tendência masculina do judaísmo e uma boa diferença quando se trata de Islamismo. A taxa de homens islâmicos é 55,27% maior que a de mulheres. Somando todas as religiões abraâmicas (Cristianismo, Judaísmo e Islã) temos ainda uma taxa levemente mais feminina que masculina: 2,90%.

No entanto, analisando outras religiões, essa taxa feminina tende a ser maior ainda. Mulheres são, em média, 27,29% e 29,76% mais fiéis ao Espiritismo (Kardecismo) e espiritualismo respectivamente. Analisando as religiões de matriz africana e/ou afro-brasileira, notamos também uma tendência maior de participação de mulheres, com 15,72% a mais na Umbanda e 12,10% a mais nas religiões afro como um todo.

De religiões indianas e orientais, há algo curioso: embora a diferença entre taxas seja sensivelmente maior em novas religiões orientais (como Igreja Messiânica Mundial, Igreja da Unificação) e no Budismo, no hinduísmo há uma grande prevalência de homens, com a taxa masculina sendo 12,19% maior (enquanto a taxa feminina chega a ser 27,82% maior nas novas religiões orientais). A taxa de homens em tradições esotéricas também é maior (37,45% de diferença) como em religiões indígenas (7,95% de diferença), embora mulheres sejam 13,28% mais propensas a praticarem outras religiões.

Quando analisando "sem religião" e suas subdivisões, a taxa de homens é absurdamente maior. O Censo 2010 usa a denominação "sem religião" e as divide em três categorias: "sem religião", "ateus" e "agnósticos". Embora ausência de religião, ateísmo e agnosticismo não sejam posições mutualmente exclusivas, usarei a classificação que o Censo usa. A soma de todas essas categorias é classificada por mim como "Irreligiosos". A taxa de homens sem religião é 47,43% maior que de mulheres; de agnósticos é 78,83% maior e de ateus é de incríveis 110,49% maior, o que significa que a taxa de homens ateus é mais que o dobro de mulheres ateias. Como interpretar isso? Quais suas causas? Para tentar responder essa pergunta, pedi ajuda à amiga Nathália Lausch, mulher e ateia, que deu sua explicação:

"Acho que muitas mulheres acabam aderindo à religião e principalmente ao cristianismo porque somos condicionadas a sentir culpa e a sermos "belas, recatadas e do lar"... a culpa cristã é algo que pesa até pra mim, que sou ateia e tenho muito acesso a informações sobre esse assunto. Então imagina uma mulher de renda mais baixa que não tá na universidade e nem imagina o que seja ateísmo. Dá até medo de questionar a religião e sofrer humilhação e exclusão por parte dos familiares e vizinhos.".

Analisando o resto dos números, se nota que o número de pessoas que não sabia a própria religião ou não declarou era também muito maior em homens, 92,96% maior, praticamente o dobro da mesma taxa em mulheres. Também se nota a maior tendência (22,76%) de mulheres a terem religiões não-cristãs e também que mulheres tendem a ser mais religiosas que os homens, com uma diferença de 3,62%.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Relações entre gênero e renda no Brasil - uma análise

Não é segredo para ninguém que mulheres ganham em média menos no Brasil, fato relatado também em outras fontes. Mas como é essa relação? Como ela se distribui no território brasileiro? Há exceções à essa regra?  Essas e outras questões procurarão ser respondidas no decorrer desta postagem - que não pretende falar em nome de ninguém, mas fazer uma simples análise de dados e interpretação.
Todos os seguintes dados foram retirados do relatório do Censo de 2010 feito pelo IBGE.
Primeiro, vejamos dados gerais.

Tabela 1 - Municípios com maior rendimento médio
Estes são os municípios brasileiros com maior rendimento médio, num geral, sem distinção por gênero. Se nota uma grande presença de capitais de unidades federativas, mas as duas cidades com maior renda são do interior: Santana de Parnaíba (SP), com rendimento médio mensal de R$ 2.814 e Niterói (RJ), com rendimento médio mensal de R$ 2.635. Há mais 11 municípios no país com rendimentos médios maiores que R$ 2.000. Um grande predomínio de cidades das regiões Sul e Sudeste.

Tabela 2 - Municípios com menor rendimento médio
Vendo os municípios com menor rendimento médio (concentrados na região Nordeste com um caso na região Norte), se nota uma valor muito pequeno, sendo todos os casos com valores menores que apenas R$ 400 mensais. Ao fazermos uma média do país inteiro, temos um rendimento médio de R$ 1.144 (ainda que haja grandes variações, de até 732% entre os valores extremos).
Analisando agora dados por gênero:

Tabela 3 - Municípios com maior rendimento médio feminino
Ao analisarmos a lista dos municípios com maior rendimento médio feminino, vemos a inclusão de Cuiabá e Rio de Janeiro na lista, embora a mesma seja muito semelhante à lista dos municípios com maior rendimento médio independente de gênero. Se nota que em apenas três municípios do país pagam, em média, mais de R$ 2.000 às mulheres: Niterói, Brasília e Santana de Parnaíba (os três primeiros que mais pagam no geral, mas com ordem diferente).

Tabela 4 - Municípios com menor rendimento médio feminino
Vendo a tabela 4, vemos como a lista é semelhante à dos municípios em que as pessoas recebem menos, apesar de algumas diferenças. Se nota que no caso mais extremo - Satubinha, no Maranhão - o rendimento médio feminino é incrivelmente menor que R$ 300 mensais. Em nenhum dos citados a renda média feminina supera os R$ 330. A média nacional feminina é de R$ 956 - 16,43% abaixo da média nacional.

Tabela 5 - Municípios com maior rendimento médio masculino
Analisando a lista dos municípios brasileiros em que homens mais recebem, novamente a lista é parecida, mas algumas cidades muito pequenas (como Lajeado Grande-SC e Nova Bréscia-RS) surgem. O maior da lista é Santana de Parnaíba, com rendimento médio masculino mensal de R$ 3.630. Em Niterói e São Caetano do Sul também o rendimento médio masculino é superior a R$ 3.000 por mês. A maior renda média feminina aparecia apenas no fim da lista, enquanto 23 municípios aparecem acima dos médios R$ 2.176 pagos à mulheres em Niterói.

Tabela 6 - Municípios com menor rendimento médio masculino
Tendo mais caras novas em relação à lista de municípios em que o rendimento é menor no geral, é notada uma grande diferença: a menor renda média masculina do país é de Caraúbas do Piauí, com R$ 361 mensais. Esse valor é maior que qualquer valor da lista de menores salários médios femininos - se comparado em valores brutos, chegamos à conclusão que no município em que os homens ganham menos, o rendimento dos mesmos é maior o rendimento feminino médio que em 165 municípios espalhados pelo país. A renda média masculina no país é de R$ 1.340, 17,13% maior que média nacional independente de gênero e 40,16% maior que a renda média feminina.
Comparando com o salário mínimo atual - R$ 788,00 - vemos que 3.100 municípios (onde vivem 50.925,895 pessoas, 26,69% da população brasileira) têm renda média menor que o salário mínimo. Mas se colocarmos a questão de gênero em conta, os dados mudam. Em 4.446 municípios (lares de 76.449.074 pessoas, constituindo 40,07% da população brasileira) a renda média é feminina é menor que o salário mínimo (se usarmos a renda média masculina, o número cai para 2.396 municípios, onde moram 39.030.594 pessoas, equivalendo a 20,46% da população do país.
Listando municípios em que a renda média feminina é menor que o salário mínimo e a masculina não, temos 2.047 municípios, com um total de 37.331.963 habitantes. 19,57% da população brasileira, em termos relativos. Mas se procurarmos o contrário - municípios em que a renda média feminina é maior que o salário mínimo e a masculina não - achamos apenas um exemplo: Barão do Triunfo, no RS, onde mulheres ganham exatamente o salário mínimo e homens 3 reais a menos. Esta pequena cidade gaúcha equivale a apenas 0,003% da população do país.

Tabela 7 - Municípios com maior razão entre rendimentos médios masculinos e femininos
A razão considerada na tabela 7 é medida dividindo o rendimento médio masculino da cidade pelo rendimento médio feminino da cidade. Quanto maior, mais desigual a favor dos homens; quanto menor, mais desigual a favor das mulheres; quanto mais próximo de 1, mais igual. O município líder é Lajeado Grande-SC, com a  razão de 3,01. Isto é: neste município, o homem ganha em média três vezes o que ganha a mulher - 201% a mais. Analisando outros municípios, os mais desiguais do país em favor do homem todos pagam mais que 100% de diferença: há 45 municípios no Brasil com essa taxa ou maior.

Tabela 8 - Municípios com menor razão entre rendimentos médios masculinos e femininos
Esta tabela mostra a situação contrária: em que municípios as mulheres ganham em média mais que o homem (e alguns em que a situação é muito parecida, ainda que os homens recebam pouco mais). O município em que a mulher é mais favorecida em questão de salário é Isaías Coelho, no Piauí. Ali, o homem recebe 11% a menos que a mulher em média. Enquanto a razão média do país como um todo é de 1,40, na análise dos dados foram notados 12 municípios no qual a mulher mais que o homem - nos quais vivem 82.226 pessoas, ou 0,04% da população brasileira. Um único município do país - Calçado, no Agreste Pernambucano - paga o mesmo salário médio a pessoas de ambos os gêneros. Mas a situação amplamente dominante é o homem ganhar mais que a mulher. É mais comum em 5552 municípios - nos quais vivem 190.662.448 pessoas - 99,95% da população do país.
O próximo aspecto considerado é o peso da renda de cada gênero na economia local e do país.

Tabela 9 - Municípios com maior peso masculino na renda geral
Sendo que além da renda média ser diferente entre gêneros, muitas vezes a proporção de homens para mulheres pode variar - em alguns casos em números extremos, como o município de Balbinos, em São Paulo, onde mais de 80% da população é masculina. Isto faz com que a peso de cada gênero seja diferente para a economia local. E isto é evidenciado na tabela 9. Usando os municípios com maior peso masculino - em geral, municípios com população masculina sensivelmente maior, apesar de alguns casos sem isso, como Lajeado Grande  - vemos que mais de 70% dos lugares é de origem masculino. O caso mais extremo, o de Balbinos, tem 86,25% da renda provinda de homens.

Tabela 10 - Municípios com menor peso masculino na renda geral
No entanto, notamos alguns poucos exemplos do contrário: mulheres tendo um peso maior na economia local que homens. Oito municípios estão nesta lista - curiosamente, quase todos na região Nordeste. O com maior peso feminino é Isaías Coelho, com 52,71% de peso feminino na renda local. Fazendo uma estatística geral do país, temos 42,65% da renda vindo do gênero feminino e 57,35% vindo do gênero masculino, ainda que a população masculina seja maior. Isto evidencia o último critério a ser análise: falha de paridade.
A falha da paridade é a diferença entre a participação do gênero na renda e sua % da população - isto é, ver se a renda confere à realidade estatística da população.

Tabela 11 - Municípios com maior participação masculina na renda que sua parcela na população
Lajeado Grande, seguida de Ipiranga do Sul, têm a maior falha de paridade: 24,90% e 24,18%, respectivamente. Em Lajeado Grande, 50,74% da população é responsável por 75,63% da renda local. Em Ipiranga do Sul, onde a população masculina e feminina são iguais, a participação masculina beira os 75%.

Tabela 12 - Municípios com maior participação masculina na renda que sua parcela na população
Olhando o contrário: municípios com maior representação feminina que sua parcela da população encontramos 12 casos e um caso neutro - onde a representação feminina na população e na renda local é exatamente a mesma: Calçado. Somando todas as falhas de paridade chegamos ao incrível número de 45.574,51%. Um média de 8,18% para cada município brasileira. Erro este, na enorme maioria dos casos, favorecendo a participação masculina na renda local.
Dúvidas? Sugestões? Correções? Comenta aí!