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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Religiões de matriz africana no Brasil

Hoje, dia 20 de novembro, é o Dia Nacional da Consciência Negra, dia que coincide com a morte de Zumbi dos Palmares, falecido em 1695. Aproveitando a deixa, farei uma análise das religiões de matriz africana no Brasil.
O Brasil tem uma minoria significante de seguidores de religiões de matriz africanas, muitas vezes trazidos pelos escravos (como o candomblé) e outras criadas no Brasil (como umbanda). Ainda há outras, como quimbanda, mas que são menores. Mas surgem algumas questões: como os fiéis são distribuídos? Quantos existem no Brasil? Qual o lugar com mais seguidores dessas religiões? E com menos seguidores?
Primeiro, é preciso dizer que religião no Brasil é um assunto complexo, afinal há muito sincretismo, muitas pessoas se identificam e/ou participam de ritos de mais de uma religião. Mas o critério utilizado será de autodeclaração, com dados tirados do Censo de 2010, pois apesar do sincretismo, é a base de dados mais completa acessível.
A divisão será feita tal qual a divisão que o IBGE usa: dividir as religiões em candomblé, umbanda e outras. Agora vejamos como é a distribuição dos seguidores de umbanda no Brasil.

Tabela 1 - Municípios com mais seguidores de umbanda no Brasil
Como pode ser notado, um domínio gigantesco do estado do Rio Grande do Sul. A cidade mais umbandista do Brasil é Cidreira, com 5,83% da população sendo seguidora da umbanda. O RS tem um total de 10.693.929 seguidores, com 140.314 seguidores da umbanda - um total de 1,31%. Enquanto no Brasil temos 407.333 (34,44% dos brasileiros umbandistas vivem no RS) umbandistas, um total de 0,21% da população. Sem contarmos o Rio Grande do Sul, a taxa de umbandistas cai para 0,14%, com a taxa do RS sendo 6,14 vezes maior que a do Brasil como um todo e 8,84 vezes maior que do Brasil sem o RS. Mas qual a cidade e região menos umbandista no Brasil?
Existem 4.267 municípios no Brasil sem nenhuma pessoa autodeclarada umbandista (76,67% dos municípios pesquisados no país). Somando todos estes municípios, temos 57.115.004 habitantes, um total de 29,94% da população brasileira. Como a lista seria grande demais, pegaremos os 25 maiores municípios nesta condição.

Tabela 2 - Municípios com menos seguidores de umbanda no Brasil
Temos como maior município sem umbandistas Governador Valadares, em Minas Gerais, com pouco mais de 260 mil habitantes. Temos mais 13 municípios sem nenhum umbandistas. Mas falando de candomblé, a situação muda, e sua geografia também.

Tabela 3 - Municípios com mais candomblés no Brasil
O município mais candomblé no Brasil é Itaparica, na Bahia. Se nota um domínio baiano muito grande na lista. A Bahia, que tinha 14.016.906 habitantes segundo a Censo de 2010, tinha na mesma época 40.299 seguidores da candomblé, 0,29% da população. Uma análise nacional acha 167.366 seguidores (a Bahia concentra 24,07% dos brasileiros que seguem esta religião), 0,09% da população.  Retirando a Bahia, a taxa de candomblés no Brasil cai para 0,07%. A taxa de candomblés na Bahia é 3,27 vezes da taxa do Brasil como um todo e 3,99 vezes a taxa do Brasil sem a Bahia. No total, existem 4720 municípios no Brasil sem candomblés (84,81% dos municípios) onde vivem 72.238.583 pessoas (37,86% da população do país). Os casos mais extremos são vistos na tabela a seguir:

Tabela 4 - Municípios com menos candomblés no Brasil
O maior município do país sem candomblés é Aparecida de Goiânia, com mais de 450 mil habitantes. Todos os 25 maiores municípios brasileiro nesta condição têm mais de 100 mil habitantes.
Agora, a última categoria utilizada pelo IBGE é o "outras declarações de religiões afrobrasileiras". Estas são muito mais restritas e com menos seguidores, como veremos a seguir:

Tabela 5 - Municípios com mais seguidores de outras religiões afro no Brasil
Como podemos ver, em apenas um município do país temos mais de 0,5% da população seguindo estas religiões: Conquista D'Oeste, no Mato Grosso. No entanto, os poucos lugares do país em que há seguidores desta religião, a maioria está no Rio Grande do Sul. Enquanto no Brasil temos apenas 14.109 seguidores destas religiões (menos de 0,01% da população, no entanto usarei números arredondados para as porcentagens, no Rio Grande do Sul temos 8.847 destes (62,70% do total do país), um total de 0,08% da população. Excluindo o Rio Grande do Sul, temos 0,002% da população seguindo estas religiões. A taxa do Rio Grande do Sul é 11,18 vezes maior que o Brasil como um todo e 28,30 vezes maior que no Brasil sem o Rio Grande do Sul.

Tabela 6 - Municípios com menos seguidores de outras religiões afro no Brasil

Temos 5.402 municípis brasileiros (97,07% do total) sem nenhum seguidor desta religião, onde vivem 128.371.551 pessoas (67,29% da população do país). O maior lugar sem nenhum destes é Guarulhos, seguido de Campinas - os dois municípios com mais de um milhão de habitantes.
Somando os três "ramos" considerados pelo IBGE, como fica o resultado?

Tabela 7 - Municípios com mais seguidores de outras religiões afro no Brasil
Novamente, um domínio gaúcho, explicado pelo fato da umbanda e outras religiões afros (mais concentradas no RS) serem mais de 150% maiores que o candomblé. O município com mais seguidores de religiões afro é, novamente, Cidreira, que tem 5,87% dos habitantes nestas condições. O Brasil como um todo tem 588.808 seguidores destas religiões, 0,31% da população. No RS, temos 157.599 seguidores destas religiões - 1,47% da população. Descontando o RS, temos 0,22% da população nesta condição. A taxa de seguidores no RS é 4,77 vezes maior que no Brasil como um todo e 6,51 vezes maior que no Brasil sem o RS. Mas quais as maiores cidades em que essas religiões são menos praticadas?

Tabela 8 - Municípios com mais seguidores de outras religiões afro no Brasil
Existem muito municípios sem nenhum seguidor de religiões de matriz africana no Brasil, o maior sendo Ibiraté, no Maranhão, havendo mais sete na mesma condição com mais de 100 mil habitantes. Mas considerando o total, temos 3.968 municípios no país (71,30% do total) sem nenhum seguidor dessas religiões, nos quais vivem 49.372.671 pessoas (25,88% do total). Fica a conclusão que existem no Brasil mais de meio milhão de pessoas destas religiões e a constatação que o RS, embora seja lembrado pela sua maior herança italiana e alemã, um real centro de cultura e religião afrobrasileira no Brasil.