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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Eleições e legitimidade

Depois das eleições presidenciais do Brasil em 2014, houve nas redes sociais várias postagens insinuando que o governo Dilma não é legítimo pois o número de eleitores somados que não votaram nela é maior que o número de eleitores que votaram nela, portanto "a maioria dos brasileiros não quer Dilma". As eleições não funcionam assim, vence quem tiver o maior número de votos válidos (isto é, votos não-brancos e não-nulos), mas se fosse diferente? Aqui vou analisar todas as eleições presidenciais desde 1989 usando cinco métodos diferentes para contagem de votos:
1) Considerar todos os eleitores e quem tiver mais de 50% é eleito;
2) Considerar todos os eleitores que votaram (descontando os que se abstiveram de votar) e quem tiver mais que 50% é eleito;
3) Considerar todos os votos válidos e brancos e quem tiver mais que 50% é eleito;
4) Considerar todos os votos válidos e nulos e quem tiver mais que 50% é eleito;
5) Considerar apenas os votos válidos e quem tiver mais que 50% é eleito;
A primeira eleição a ser analisada é a de 1989, no segundo turno, disputado entre Lula e Fernando Collor.


Fernando Collor teve um total de 35.089.998 votos contra 31.076.364 votos de Lula, 986.446 votos em brancos, 3.107.893 votos nulos e 11.814.017 abstenções. Usando o critério 1: Collor teve 42,75% dos votos contra 37,86% de Lula (1,20% de votos em branco, 3,79% de votos nulos e 14,39% de abstenções), portanto Collor não seria eleito.
Usando o critério 2: descontadas as abstenções, Collor teve 49,94% dos votos totais, Lula teve 44,23%, 1,40% de votos em branco e 4,42% de votos nulos, portanto, Collor não seria eleito.
Usando o critério 3: Collor teria 52,25% dos votos, Lula teria 46,28% e 1,47% de votos brancos, portanto, Collor seria eleito.
Usando o critério 4: Collor teria 50,65% dos votos, Lula teria 44,86% dos votos, 4,49% seriam nulos, portando Collor seria eleito.
Usando o critério 5: este é o critério utilizado pelas eleições. Collor teria 53,03% dos votos e Lula 46,97% dos votos, portanto, Collor seria eleito.
A próxima eleição é a de 1994. Esta não precisou de segundo turno, pois o candidato FHC ganhou ainda no primeiro turno (fazendo mais de metade dos votos válidos).


FHC teve um total de 34.350.217 votos, contra 28.935.416 dos outros candidatos somados (dos quais se destacou Lula). Votos em branco foram 7.191.856, nulos foram 7.443.144 e houve 16.833.946 abstenções. Calculando pelo primeiro critéiro, temos os seguintes números; 36,25% dos votos para FHC, 30,54% para outros candidatos, 7,59% brancos, 7,86% nulos e 17,77% de abstenções, portanto, FHC não seria eleito.
Já pelo segundo critério, FHC teria 44,08% dos votos, os outros teriam 37,13%, 9,23% de brancos e 9,55% de nulos, não elegendo FHC.
Com o critério 3 sendo utilizado, FHC teria 48,74% dos votos, os outros candidatos teriam 41,06% e 10,20% em branco, não elegendo FHC.
No quarto critério, números muito parecidos. 48,57% para FHC, 40,91 para os outros e 10,52% nulos, novamente, FHC não seria eleito.
Pelo quinto critério, o real, FHC teve 54,28% dos votos válidos contra 45,72% do resto, resultando em FHC sendo eleito.
Na eleição de 1998, tivemos o mesmo cenário: FHC ganhando em primeiro turno (novamente com Lula em segundo).


Votos para o então presidente da república FHC foram 35.936.540, 31.786.025 para o resto dos candidatos, 6.688.612 votos brancos, 8.884.426 nulos e 22.798.904 ausências (um número muito alto). Se utilizarmos o primeiro critério, FHC teria 33,87% dos votos, os outros teriam 29,96%, em branco seriam 6,30%, nulos seriam 8,37% e abstenções 21,49%. Com pouco mais de um terço da preferência dos eleitores, FHC não seria (re)eleito.
Mas se o critério utilizado for o segundo, o cálculo muda. FHC levaria 43,14% dos votos, os outros levariam 38,16%, 8,03% seriam em branco e 10,67% nulos. se nota um alto número de eleitores não querendo votar em nenhum candidato. Com este resultado, FHC não se elegeria.
Partido para o terceiro critério: 48,29% para ele, 42,72% para o resto dos eleitores e 8,99% de votos em branco, não elegendo FHC.
Pelo quarto critério, 46,91% para FHC, 41,49 para os outros candidatos e 11,60% de nulos, não dando a eleição para FHC.
Considerando apenas os votos válidos (critério 5), FHC teve 53,06% contra 46,94%, configurando vitória de FHC.
Em 2002, voltamos a ter segundo turno, com a boa vitória lulista contra José Serra, do PSDB.


No segundo turno, Lula fez um total de 52.793.261 votos, Serra fez 33.370.723 votos, 1.727.759 foram em branco, 3.772.134 foram nulos e abstenções foram 23.589.072. Se o primeiro critério for utilizado, Lula fez 45,81% dos votos, Serra fez 28,95%, apenas 1,50% foram em branco, 3,27% foram nulos e 20,47% não votaram, fazendo com que Lula não fosse eleito.
Mas o cenário muda se utilizarmos o critério 2: Lula receberia 57,59% dos votos, Serra receberia 28,95%, em branco seriam 1,88% e nulos 4,12%, o que significa que Lula seria eleito.
Se o critério utilizado for o terceiro, Lula vence por 60,07% contra 37,97% de Serra e 1,97% de nulos, então Lula seria eleito.
Utilizando o critério 4, Lula teria 58,70%, Serra teria 37,10% e nulos seriam 4,19%, dando a vitória a Lula.
No critério de verdade (o quinto), Lula venceu por 61,27% a 38,73% e Lula foi eleito.
Em 2006, novamente segundo turno entre PT e PSDB, desta vez entre Lula e Alckmin.


No total: 58.295.042 votos para Lula (recorde até hoje), 37.543.178 votos para Alckmin, 1.351.448 votos em branco, 4.808.553 votos nulos e 23.914.714 de abstenções. Se o critério utilizado for o primeiro, Lula teria 46,30% dos votos, Alckmin teria 29,82%, em branco seriam 1,07%, nulos seriam 3,82% e abstenções 18,99%, significando que Lula não teria sido eleito.
Já se utilizarmos o critério 2, Lula teria levado 57,15% dos votos, 36,81% dos votos para Alckmin, 1,32% em branco e 4,71% nulos, elegendo Lula;
Terceiro critério em ação: 59,98% para Lula, 38,63% para Alckmin e 1,39% em branco, fazendo com que Lula seja eleito.
Com o quarto critério em uso, teríamos 57,92% para Lula, 37,30% para Alckmin e 4,78% de votos nulos, elegendo Lula.
Usando o critério 5, Lula seria eleito com 60,83% contra 39,17% do seu oponente.
Em 2010 novamente tivemos segundo turno: Dilma Rousseff do PT contra José Serra do PSDB.


Tivemos um total de 55.752.483 votos para Dilma, 43.711.162 para Serra, 2.425.594 votos brancos, 4.689.397 votos nulos e 29;196.864 (outra abstenção muito alta). Utilizando o primeiro critério: Dilma teria 41,06% dos votos, Serra teria 32,19%, votos em branco seriam 1,79%, nulos seriam 3,45% e abstenções 21,50%, portanto, Dilma não seria eleita.
Se o critério utilizado for o segundo, Dilma teria 52,31% dos votos totais, Serra teria 41,01%, em branco seriam 2,28%, nulos seriam 4,40%, fazendo com que Dilma fosse eleita.
Usando o terceiro critério, Dilma leva 54,72% dos votos, Serra leva 42,90% e os brancos seriam 2,38%, caracterizando eleição de Dilma.
Se a proposta utilizada for a quarta, Dilma teria 53,53% dos votos, Serra teria 41,97% e 4,50% seriam nulos, caracterizando novamente vitória de Dilma.
Se usado o quinto critério, vitória dilmista por 56,05% a 43,95%.
Chegando à última e mais atual eleição: 2014. Dilma contra Aécio Neves, do PSDB.


No total, temos os seguintes números: 54.501.118 votos para Dilma, 51.041.155 votos para Aécio, 1.921.819 votos em brancos e 5.219.787 votos nulos, com 30.137.479 abstenções. Usando o critério 1, temos 38,16% para Dilma, 35,74% para Aécio, 1,35% em branco, 3,65% nulo e 21,10% de abstenções, não elegendo Dilma.
Se a proposta utilizar for a 2, temos os seguintes dados: 48,37% para Dilma, 45,30% para Aécio, 1,71% em branco e 4,63% nulos, não dando a eleição à Dilma.
Utilizando o terceiro método, temos 50,72% para Dilma, 47,50% para Aécio e 1,79% em branco, dando a vitória para Dilma.
Com o quarto critério, Dilma leva 49,21% contra 46,08% de Aécio (com 4,71% de votos nulos), não elegendo Dilma.
Com o critério utilizado nas eleições, Dilma leva a vitória com 51,64% contra 48,36%.
Vemos o geral da situação no seguinte quadro-resumo:


Alguma dúvida, sugestão, correção, crítica ou algo mais fiquem a vontade nos comentários.